Como ela se olha agora no espelho no momento de se vestir. Como. Como ela fez com louvor o barulhinho do elástico da calcinha, pleft, a mais lindas das onomatopeias das intimidades das moças.
E nas vitrines da rua, como será aquela rápida mirada, extrato para simples conferência demasiadamente feminina. Como ela brigou com o cabelo hoje, porque em alguns dias os cabelos teimam em desobedecer às mulheres e as leis do cosmo, sejam elas ou os cabelos como forem.
Como ela encarou o armário.
Como enfiou a colher no papaia logo cedo antes de todas as acontecências que narro ao longe. Como ela blasfemou contra o universo. Como ela afinou os seus “uis” e os seus “ais” para enfrentar a humanidade.
Como ela disse ao telefone: “mãe, não se preocupa, eu já estou grandinha”.
Porque o amor no auge é o maior plano-sequência da existência. Maior do que o de Hitchcock no filme “Festim Diabólico”
Sem cortes ou interrupções, assim vemos o amor nos seus melhores momentos.
O realismo possível.
Quer saber, amor é montagem, cada um cola seu filme como deseja, não, você não é obrigado a ficar ao lado de alguém que não lhe retribui amor, saia, você não é uma arvore, cada um faz o seu “Um homem e uma mulher”, como no clássico recortado na ilustração deste post.
Cada dois, cada um.
Os homens a secam no percurso, sem agressividade, só no voyeurismo, como ela anda bonito.
Como ela deu aquela ajeitadinha nos peitos, agora já recuando para o começo das ações, o espelho. Como ela roçou um lábio no outro para corrigir o batom e dosar na maldade. Como ela decidiu por sandálias e não por sapatos ou botas. Como ela deu aquele saltinho na rua de moça feliz por hoje.
Como ela achou que o celular tocava dentro da bolsa só porque quem a ama pensava nela, e não era nada pouco.

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