São quatro horas da
manhã..
Ela se sentia,
inconsolada, o sol negro, a melancolia
A cama vazia, a TV
ligada e um livro na escrivaninha
Pegou um café, um
cigarro e sua caixinhas de fotos
Lá fora algumas
sirenes tocavam indo salvar atropelados que morreram, pessoas que
nasciam
Que choravam, que
gritavam, ou que viveram depressa demais
Isso nem a incomodava,
seus pensamentos eram outros
Passando as fotos,
reparando bem...não, ele não ele não era lindo
Mas ela o achava bonito
de formas tão variadas e profundas
Uma preocupação com
as pessoas, e mais que tudo com ela
Ele com suas eternas
tiradas, bem afiadas, um humor sínico que pouca gente sabe ter
A forma como ele a
olhava como se ela fosse a mulher mais bonita do mundo
Como ele as vezes
implicava com seus gostos e manias
Como ele se lembrava de
cada detalhe, como ele se preocupava sempre em agradar
“Onde será que ele
está agora? Em alguma festa, deve estar com outra...não, não, não
Deve estar escolhendo e
achando toda mulher tão boba
Deve estar lá no
fundo, parecendo um reizinho suado com um copo na mão
Com aquele olhar blasé
e falando sem parar sobre todos os assuntos do mundo
Deve estar sendo
simpático, falando de musica ou fingindo se interessar pelas vidas
delas
Eu lembro de cada
brincadeira, de cada mimo, de cada briga
E isso vem como um soco
de buque de flores no meu estomago
Não quero ve-lo nunca
mais”
Mas então o telefone
toca
As sirenes passaram, e
em meio a sua insonia vem a expectativa
ela acreditou que só
poderia ser ele
“Não, deve ser
engano, vou atender
Mas se for ele, não
quero mais falar com ele
Ah essa minha eterna
falta de vergonha na cara
Eu sinto falta de cada
uma de nossas bobagens”
Ela deixou tocar, e foi
para a cozinha
“Comer, vamos lá,
deve ter chocolate...ai ai, ainda tem um pedaço do chocolate que ele
me deu”
E por cada canto da
casa, é como se cada comodo fosse uma lembrança
Onde ele explicava uma
musica ou algum filme com toda empolgação
E ela mal sabia ou se
interessava pelo que ele estava falando
As ligações para
saber como ela estava no decorrer do dia
A maneira como ele
cozinhava mal e ria de si mesmo depois
Ela andava devagar pela
casa e tropeçava nas lembranças
E cada delicadeza dele
nos detalhes dormiam e acordavam com ela
“Não deve haver mais
ninguém assim”
Silencio...e novamente
o telefone..
“Não de novo não,
não posso, nem quero”
Mas com a mesma falta
de vergonha ela foi atender
E do outro lado, depois
de uma pausa veio:
“Oi, o que está
fazendo acordada?”
Era a voz dele, aquela
que soava tão familiar:
-Adam é você?
Aconteceu algo?
-Nunca precisou
acontecer nada para eu te ligar, o que está fazendo?
-Na..nada..acordei com
o telefone, mas, o que você está fazendo?
-Revirando nosso álbum
de fotos para tentar te esquecer...
Ela tentava engolir o
nó que ficou na garganta
-Porque você me vem
com essa conversa a essa hora ?
-Quer que eu ligue
amanha?
-Acho que o plano era
não ligar mais
-Não
se digere amor, não se cospe amor, amor...
-...é
o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor
-Lembra?
-Lembro
-Lembra
que me ensinou fazer macarrão?
-Lembro
mas...
-Queimou,
não deu certo, e lembra aquela viagem que eu te falei?
-Olha
lembro mas...
-Eu
não fui, não deu certo, lembra que o plano era te esquecer?
-Lembro,
meu olha...
-Então,
não ta dando certo
-Olha
Adam, são quatro horas da manhã e...
-Me
perdoa?
-Você
não fez nada para pedir perdão, vamos esquecer isso e...
-Você
me atendeu e está comigo no telefone até agora, e vi o jeito que me
olhou outro dia na rua
-Você
me viu?
-Vi
sim, e aposto que hoje ou ontem você mexeu na sua caixinha de fotos
-Adam,
são quatro da manhã, por favor...
-Eu
gosto de você Pamela, eu gosto da sua falta de mira pra me acertar
com a almofada, eu gosto da linha suntuosa da sua cintura, gosto
quando te abraço e você parece tão pequena, gosto como você fala
sobre sexo fora de hora, gosto de acordar e ainda te ver dormindo, eu
gosto do castanho dos seus olhos, e de perceber como eles não perdem
o brilho, gosto de você rindo de mim porque mal sei me cuidar, mas
estou sempre querendo ajudar alguem, gosto como você me olhava no
sofá esperando eu lhe dizer algo bonito, como se fosse uma flor
discreta na janela que está ali propositalmente distraída esperando
o Sol, gosto de saber que você me odeia mas é de mim a sua
lembrança afetiva mais sincera, gosto de perceber que você está me
ouvindo sem me interromper dizendo que são quatro horas da manhã, e
tenho certeza de que agora você deve estar olhando pro chão sem
saber se me xinga ou tem vontade de vir me encontrar...
-Adam,
eu estava te ouvindo, com dor no peito e sorrindo
-Sorrindo?
Porque?
-Porque
eu assumo, eu estava paranoica achando que você estava com alguem, e
revirando suas fotos e escrevendo no meu caderno, que eu estava aqui
engasgada com aquele nozinho sim...e... porque eu não quero mas no
fundo eu te amo, e não se digere amor, não se cospe amor, porque
amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor
*Historia
inspirada na musica “A vida é doce”/Lobão
*Citação sobre o
amor: Tati Bernardi




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