sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Uma noite na vida de Pamela






São quatro horas da manhã..
Ela se sentia, inconsolada, o sol negro, a melancolia
A cama vazia, a TV ligada e um livro na escrivaninha
Pegou um café, um cigarro e sua caixinhas de fotos
Lá fora algumas sirenes tocavam indo salvar atropelados que morreram, pessoas que nasciam
Que choravam, que gritavam, ou que viveram depressa demais
Isso nem a incomodava, seus pensamentos eram outros
Passando as fotos, reparando bem...não, ele não ele não era lindo
Mas ela o achava bonito de formas tão variadas e profundas
Uma preocupação com as pessoas, e mais que tudo com ela
Ele com suas eternas tiradas, bem afiadas, um humor sínico que pouca gente sabe ter
A forma como ele a olhava como se ela fosse a mulher mais bonita do mundo
Como ele as vezes implicava com seus gostos e manias
Como ele se lembrava de cada detalhe, como ele se preocupava sempre em agradar

“Onde será que ele está agora? Em alguma festa, deve estar com outra...não, não, não
Deve estar escolhendo e achando toda mulher tão boba
Deve estar lá no fundo, parecendo um reizinho suado com um copo na mão
Com aquele olhar blasé e falando sem parar sobre todos os assuntos do mundo
Deve estar sendo simpático, falando de musica ou fingindo se interessar pelas vidas delas
Eu lembro de cada brincadeira, de cada mimo, de cada briga
E isso vem como um soco de buque de flores no meu estomago
Não quero ve-lo nunca mais”

Mas então o telefone toca
As sirenes passaram, e em meio a sua insonia vem a expectativa
ela acreditou que só poderia ser ele

“Não, deve ser engano, vou atender
Mas se for ele, não quero mais falar com ele
Ah essa minha eterna falta de vergonha na cara
Eu sinto falta de cada uma de nossas bobagens”

Ela deixou tocar, e foi para a cozinha
“Comer, vamos lá, deve ter chocolate...ai ai, ainda tem um pedaço do chocolate que ele me deu”
E por cada canto da casa, é como se cada comodo fosse uma lembrança
Onde ele explicava uma musica ou algum filme com toda empolgação
E ela mal sabia ou se interessava pelo que ele estava falando
As ligações para saber como ela estava no decorrer do dia
A maneira como ele cozinhava mal e ria de si mesmo depois
Ela andava devagar pela casa e tropeçava nas lembranças
E cada delicadeza dele nos detalhes dormiam e acordavam com ela
“Não deve haver mais ninguém assim”

Silencio...e novamente o telefone..
“Não de novo não, não posso, nem quero”
Mas com a mesma falta de vergonha ela foi atender
E do outro lado, depois de uma pausa veio:
“Oi, o que está fazendo acordada?”
Era a voz dele, aquela que soava tão familiar:

-Adam é você? Aconteceu algo?
-Nunca precisou acontecer nada para eu te ligar, o que está fazendo?
-Na..nada..acordei com o telefone, mas, o que você está fazendo?
-Revirando nosso álbum de fotos para tentar te esquecer...

Ela tentava engolir o nó que ficou na garganta
-Porque você me vem com essa conversa a essa hora ?
-Quer que eu ligue amanha?
-Acho que o plano era não ligar mais
-Não se digere amor, não se cospe amor, amor...
-...é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor
-Lembra?
-Lembro
-Lembra que me ensinou fazer macarrão?
-Lembro mas...
-Queimou, não deu certo, e lembra aquela viagem que eu te falei?
-Olha lembro mas...
-Eu não fui, não deu certo, lembra que o plano era te esquecer?
-Lembro, meu olha...
-Então, não ta dando certo
-Olha Adam, são quatro horas da manhã e...
-Me perdoa?
-Você não fez nada para pedir perdão, vamos esquecer isso e...
-Você me atendeu e está comigo no telefone até agora, e vi o jeito que me olhou outro dia na rua
-Você me viu?
-Vi sim, e aposto que hoje ou ontem você mexeu na sua caixinha de fotos
-Adam, são quatro da manhã, por favor...

-Eu gosto de você Pamela, eu gosto da sua falta de mira pra me acertar com a almofada, eu gosto da linha suntuosa da sua cintura, gosto quando te abraço e você parece tão pequena, gosto como você fala sobre sexo fora de hora, gosto de acordar e ainda te ver dormindo, eu gosto do castanho dos seus olhos, e de perceber como eles não perdem o brilho, gosto de você rindo de mim porque mal sei me cuidar, mas estou sempre querendo ajudar alguem, gosto como você me olhava no sofá esperando eu lhe dizer algo bonito, como se fosse uma flor discreta na janela que está ali propositalmente distraída esperando o Sol, gosto de saber que você me odeia mas é de mim a sua lembrança afetiva mais sincera, gosto de perceber que você está me ouvindo sem me interromper dizendo que são quatro horas da manhã, e tenho certeza de que agora você deve estar olhando pro chão sem saber se me xinga ou tem vontade de vir me encontrar...

-Adam, eu estava te ouvindo, com dor no peito e sorrindo
-Sorrindo? Porque?
-Porque eu assumo, eu estava paranoica achando que você estava com alguem, e revirando suas fotos e escrevendo no meu caderno, que eu estava aqui engasgada com aquele nozinho sim...e... porque eu não quero mas no fundo eu te amo, e não se digere amor, não se cospe amor, porque amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor


*Historia inspirada na musica “A vida é doce”/Lobão
*Citação sobre o amor: Tati Bernardi









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